sexta-feira, 28 de novembro de 2025

VELHOS COBIÇOSOS

 

Carobinha em flor - Arquivo JRS 

   Zé Roberto roda muito, leva um bom tempo para chegar ao seu local de trabalho. Vai pedalando uns quinze quilômetros, deixa a bicicleta guardada no quintal do Teteco porque diz que ali está bem guardada, sem perigo de ser roubada. Lamenta por viver assim, desconfiado de tudo, mas não pode dar sorte ao azar, pois a bicicleta é o meio de transporte dele e de mais gente que, estando de carro, sobretudo na temporada e feriados, querendo chegar logo em casa, acaba ficando parado no trânsito, sobretudo na Praia Grande. Disto se conclui que a bicicleta se torna uma solução possível.

   Paulo e Justino, ambos servidores públicos recém aposentados, moram no centro da cidade. Já não têm filhos pequenos e estão com suas vidas estabilizadas, sem preocupações essenciais, ganham o suficiente para viverem bem. Foi a respeito deles que Zé Roberto me contou o seguinte novidade:

   "Para mim, que sou relativamente jovem, é custoso ir todo dia a essa distância por causa do trabalho, mas não tem outro jeito. Agora me diga se há necessidade de dois homens já não tão jovens, aposentados, irem nessa mesma lonjura só por causa de dinheiro?". Pedi, então, que me explicasse melhor. Eu ainda não estava entendendo a que se referia o indignado amigo. "É o seguinte" - continuou ele - "Paulo e Justino resolveram abrir um bar lá no bairro, perto de onde eu deixo a bicicleta protegida. Sabe onde era a fábrica de blocos dos sócios Wilson e Nilo? Pois é, ali eles montaram um bar. Agora precisam viajar todos os dias se querem se estabelecer, ganhar freguesia, né? Será que eles precisam tanto disso ou é apenas cobiça? Quero ver se eles aguentam quando chegar a temporada, quando perderem horas nas idas e vindas. Não poderiam ficar em casa, curtindo suas famílias e netos que estão chegando sempre? E, além do mais, nem sei se ali é um bom ponto para montar um bar. São poucos moradores, famílias tradicionais, quase no pé do morro."

   Eu escutei e considerei os argumentos do Zé. Achei que ele estava com razão. Eu não faria esse sacrifício se não houvesse tanta necessidade. Me parece que a parceria dos dois aposentados se sustenta apenas na cobiça, na ânsia de ganhar mais dinheiro sem levar em consideração outros aspectos do resto de vida que têm pela frente. Eu, caso tivesse o tempo livre deles, sem querer ficar em casa atormentado a mulher, pegaria a linhada e iria pescar na costeira. Ou ficaria ali, na boca da barra, jogando baralho e conversa fora com a companheirada. Deixa pra lá, a vida é deles! Posso chamá-los de velhos cobiçosos?


quarta-feira, 26 de novembro de 2025

VELHOS COMUNISTAS

 

Caiçarada, a festa - Arquivo JRS 

     Em Ubatuba, na estrada do Morro da Berta, longe de cidade, moravam os dois mecânicos, velhos comunistas segundo dizia meu finado pai. Seo Pedro, outro do time de igual ideal, tinha casa e família numerosa no coração da cidade. Viviam na espreita, ariscos, porque era tempo difícil, de ditadura militar. Essas ideias de ter tudo por igual, repartido segundo as necessidades, são antigas! Se acreditarmos no que é dito nos Atos dos Apóstolos e em cartas de Paulo dirigidas aos primeiros seguidores das ideias e do exemplo de vida de Cristo, acharemos textos que comprovam a busca deste ideal: repartir os bens desta Terra, ser uma comunidade solidária, inclusiva etc. Se é verdade o que escreveram a respeito de Jesus, temos no grupo que o cercava os fundamentos explícitos de um autêntico e desafiador comunismo. No século XIX, na Inglaterra, vendo as agruras da classe operária, Karl Marx e seu parceiro Engels, inspirados nas comunidades primitivas, teorizaram uma sociedade diferente da capitalista. Em 1917, o império russo viveu inicialmente a sua revolução nos moldes dos princípios dos dois teóricos. Ao longo da história muita gente acreditou e segue firme nos mesmos princípios. Eu costumo dizer que as nossas comunidades de pobres caiçaras sobreviveram graças aos princípios comunitários, onde a pesca coletiva acontecia semanalmente, se ajudavam nos roçados e farinhadas, repartiam suas caçadas, festejavam na unidade etc. Houve experiência histórica de um Estado realmente comunista? Não! O que buscam implantar em diversos pontos do planeta é um Estado socialista. Socialismo é quando o poder estatal interfere fartamente nos rumos da sociedade visando uma vivência mais justa; seria uma etapa anterior ao comunismo, o grande desafio, a utopia do autogoverno de cada um dentro de uma comunidade que se auto governa também. Por um mundo assim, Cristo, outros líderes carismáticos e muitos que se identificaram com igual projeto foram imolados. Por isso se diz que ser cristão de verdade é ser revolucionário. Mas voltando à nossa história primeira, dos velhos mecânicos comunistas do Morro da Berta: eu me admirava de ver, como que abandonado no terreiro deles, um velho modelo de caminhão. Pensava que ali apodreceria sem prestar para nada. Foram anos vendo o estado de abandono, até que um dia, como se tivesse acontecido um milagre, lá estava o caminhão brilhante, parecendo novíssimo. Dava até para enganar que havia saído da fábrica naquele momento aquilo que, no meu entender, já era ferro velho. Inacreditável o que pessoas capacitadas e com firmes propósitos conseguem fazer! 

terça-feira, 25 de novembro de 2025

A CRIANÇA QUE DORMIA

 

Caminho das margaridas - Arquivo JRS 

  Era da metade do dia para o fim da tarde, quando eu me dirigia a uma festa de fim de ano. Na rua encontrei a Elen empurrando o carrinho da criança. Era comum ela, adolescente, sair para distrair a bebê todas as tardes enquanto os pais da criança trabalhavam. Também para ela era bom, fazia-lhe bem, se alegrava com as novidades pelos caminhos, pelos sorrisos das pessoas e por algumas cenas engraçadas.  Dia quente, imaginei a sede debaixo daquele sol. Certamente que ao menos uma mamadeira com água deveria estar sendo levada, pois no bairro não há chafariz como antigamente costumava ter em alguns lugares. Senão... só restaria parar em alguma casa ou ponto comercial e pedir por favor um copo d'água. Fui divagando em coisas assim até o local da festa, onde colegas me esperavam para celebrar mais um ano de trabalho no qual nos angustiamos juntos, pois as alegrias foram poucas. Cumprimentei a quem fui vendo mais perto. Manoel me levou à cozinha onde uma montanha de bifes já estavam prontos para serem devorados. Naquela hora, não sei porque, pensei em todas as pessoas que vagam com um mínimo de coisas no estômago devido às injustiças deste mundo, por não terem seus direitos reconhecidos porque os patrões desejam lucros e mais lucros, exploram sem compaixão. Pensei no tanto de gente que é destratada pela cor da pele, pela condição sexual e/ou física que lhe coube, pelo lugar que habita etc.   Fim da festa para mim; deixei o espaço bem antes de anoitecer. Poucas pessoas estavam pelas ruas. Voltando para casa também seguia Elen empurrando o carrinho. A criança chorava, devia ter se enfastiada dos trancos ou estar com fome. Senti tristeza. Naquele horários os pais ainda não teriam chegado de seus trabalhos. Elen daria banho na pequena, alimentaria, poria para dormir. Depois se retiraria para seu quarto, nos fundos. Naquela idade já era empregada doméstica. Nem conseguiu se matricular no ensino médio porque precisava ajudar nas despesas da sua família. Era aluna brilhante até o ponto em que conseguiu estudar. Os que sabem menos obedecem melhor é a máxima no Estado opressor. A criança cuidada por ela haveria de ter outro futuro. Continuei andando, indo para a minha casa. Amanhã será um novo dia, logo será outro ano.


sábado, 22 de novembro de 2025

SABE O QUE É?

 

Arte em casa - Arquivo JRS 

Sabe o que é morar num território controlado por bandidos, mas saber que os maiores deles não vivem ali, mas sim em mansões, com aviões particulares, dinheiro a rodo e contas em paraísos fiscais?

Sabe o que é entender de política ser a arte de fazer o bem para a cidade e não só para alguns?

Sabe o que é estar em constante temor, querendo os melhores caminhos aos seus filhos, mas sendo intimidado em seu próprio portão?

Sabe o que é acompanhar toda a trama política reacionária que busca proteger esses grandes bandidos?

Sabe o que que é ver os pobres massacrados em nome de uma falsa justiça?

Sabe o que é enxergar que o domínio das tecnologias está mantendo a opressão dos que trabalham?

Sabe o que é não querer que os filhos dos pobres evoluam e se libertem da opressão?

Sabe o que é sentir algo medonho dessa imensa massa manobrada por alguns, mas dizendo ser a vontade de Deus?

Sabe o que é ver essa disparidade entre as classes sociais?

Sabe o que é se angustiar vendo os pobres sendo usados para aceitarem o sistema de morte?

Sabe o que é ver vagando pelas estradas uma força jovem na desilusão?

Sabe o que é viver sem um teto, sem carinho e sendo perseguido por não ter nada?

Sabe o que é viver da compaixão alheia ou aguentar as injúrias a cada dia?

Sabe o que é vislumbrar o final da aventura humana na Terra?


segunda-feira, 17 de novembro de 2025

LIÇÕES MÍTICAS

   

Milhos - Arquivo JRS 

   Há muito tempo, cedo pela manhã, dois índios Siox, armados de arco e flecha, caçavam nas planícies norte-americanas. No alto de um morro, olhando em volta à procura de caça viram alguma coisa a distância que se aproximava deles de uma forma estranha e maravilhosa. Quando a misteriosa coisa chegou mais perto, notaram que era uma mulher muito bela, vestida de couro branco de gamo, carregando uma trouxa nas costas. Um dos homens sentiu imediatamente desejo sexual pela mulher. Disse ao amigo. O outro, porém, repreendeu-o, advertindo-o que aquela mulher não era, com certeza, uma mulher comum. Ela chegou bem perto nesse momento, e pondo no chão a trouxa, convidou o primeiro homem a aproximar-se. Quando isso aconteceu, os dois foram envolvidos subitamente por uma nuvem, e quando a nuvem subiu, havia somente a mulher e, o homem, nada mais restava do que os ossos a seus pés, que eram devorados por horríveis serpentes. "Olhe bem para o que está vendo!", disse ela ao outro. "Agora, volte para seu povo e diga-lhe para preparar uma grande cabana cerimonial para minha chegada. Eu quero anunciar ao povo algo de grande importância".


Todo homem apegado aos sentidos e às coisas deste mundo vive na ignorância e está sendo consumido pelas serpentes, que representam suas próprias paixões - assim explicou Alce Negro - Sacerdote Oglala Sioux (EUA - 1948)


(Do livro: O Voo do pássaro encantado - Joseph Campbell)



domingo, 16 de novembro de 2025

ONDAS NO GRANDE MAR

 

Arte em casa - Arquivo JRS 

    Um tal de Alfred Jeremias disse o seguinte: "As várias culturas da humanidade nada mais são do que dialetos da mesma linguagem espiritual". Bonito, né? Eu concordo! Afinal, a humanidade inteira tem uma mesma estrutura mental, os grupos humanos se fizeram partindo de mitos e elaborando rituais que se mantinham em sintonia com esses mesmos mitos. A identidade da estrutura mental levou a isto. Não é assim? Cada povo, cada grupo étnico, cada cultura que está na resistência até hoje seguem firmes em suas bases imemoriais, nas heranças e tradições que possibilitaram as suas existências. Cada grupo social, cada comunidade garante aos seus membros essa sensação de pertencimento. Quando a criança deixa o útero da mãe, ganha um segundo útero no qual a família está inserida. A comunidade é o segundo útero, nela está a fundamentação mitológica pela busca do bem e da felicidade. Todos os povos cultivam suas histórias e desejam isto. Portanto, todas as culturas são dialetos da mesma linguagem espiritual! Na comunidade, o meu corpo e o meu espírito se forma. O seu também! A gente vai projetando mundo afora o espírito cultivado a partir do segundo útero, da comunidade. E queremos, na diversidade das culturas, crescer como seres humanos na sociedade, alcançar essa linguagem espiritual universal. Os ritos, criados neste propósito, são ferramentas nos desafios. O conflito aparece quando determinado rito sofre deturpação por anomalias espirituais e quer se sobrepor aos outros ritos, deseja a opressão em vez do bem e felicidade geral. Anomalia espiritual é a ignorância, a auto-ilusão, a prepotência, a sede de se aproveitar para viver bem às custas dos outros. Esses tornam-se cegos e farão outros cegos, terão seguidores, se constituirão em bolhas (narcisismo coletivo) que rompem com a unidade da linguagem espiritual; criarão modelos de sociedades contrárias aos princípios comunitários. A política, sendo um instrumento pedagógico, está sujeita a ser atacada por anomalias espirituais mediante ações planejadas por essas bolhas contrárias à linguagem espiritual universal. Então... a sociedade pode deixar de ser libertária e se tornar reacionária, justificadora de todas as formas de violências. Que perigo corremos quando nos afastamos das nossas bases primeiras! Que perigo corremos com uma cultura fascista se apoderando de ferramentas eficientes, conseguindo iludir a nossa gente simples! Ainda bem que os mitos têm a previsão de morte e de renascimento! 

 


sábado, 15 de novembro de 2025

PROSA NA ESQUINA

 

Cultivo em casa - Arquivo JRS 

    Eu estava me dirigindo à rodoviária, precisava ir até a Caraguatatuba resolver uma documentação pendente. Perto do terminal de ônibus avistei uma pessoa conhecida, Valdemar, o meu colega de infância que negociava, numa banca improvisada, umas frutas que já passavam da hora, estavam feias no meu critério. Parei para prosear om pouco, sem preocupação, porque daquele ponto eu controlava as linhas dos veículos que chegavam e partiam aos seus destinos. Valdemar é nativo do sertão do Ubatumirim, mas era bem criança quando a família se mudou para mais perto da cidade em busca de melhores condições de se viver. Naquele tempo ainda não tinha sido construída a BR-101, o trecho ligando Ubatuba a Paraty. Era quando o meu povo corajoso precisava de horas a pé ou de canoa para alcançar o centro da cidade. Tempos difíceis, né?

    Eu adoro encontrar esses velhos companheiros, parceiros de aventuras de outros tempos. Sai de tudo nas prosas dessas ocasiões. Valdemar, por exemplo, era um menino que nunca usava blusa, tinha sempre os braços e pernas desnudos, não se importava com o frio. Era comum vê-lo tomando banho em qualquer tempo no rio que passava perto de sua casa. "Era tempo em que aquela água era limpa, né Zé?". Era mesmo. Do mesmo rio, um pouco mais abaixo, a grande família Yamada fazia o mesmo no tradicional ofurô. Quando a gente estava por ali brincando, ajudávamos o Bernardo, o penúltimo dos irmãos, a buscar baldes de água no rio para assim restar mais tempo às nossas brincadeiras.

    Valdemar, com suas falas entremeadas de risadas e besteiras, é uma fonte de histórias populares, guarda muitos detalhes, me ajuda a recordar de fatos que já estão bem distantes. Melhor: tem uma engenhosidade mental inspiradora, dá tons engraçados em suas narrativas que se tornam engraçadas e formativas. Diante de gente assim, eu me pego refletindo sobre o alimento simbólico que é a linguagem para a cultura. No caso, o serviço que presta à cultura caiçara esses contadores e contadoras de causos, de histórias. Podemos dizer que cada contador e cada contadora, cada pessoa que mantém essa tradição oral brinca com a história, vai garantindo a sobrevivência da cultura local. Há, sem dúvida alguma, uma potencialidade permanente nas contações do meu povo! No fundo, esse espírito, esse gênio criativo que transparece nas nossas prosas é continuidade de uma herança milenar da arte de contar histórias. Portanto, é imemorial o talento do Valdemar, Maciel, tia Ana e de tanta gente do meu povo. Termino esta com um dizer da distante Zanzibar: "Se a história foi bonita, a beleza pertence a todos nós; se foi ruim, a culpa é inteiramente minha, que a contei"